PF descarta a principal versão que aponta Curicica e Siciliano como suspeitos da morte de Marielle e Anderson

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, que completa um ano no próximo dia 14, pode voltar à estaca zero em relação à principal linha de investigação. Apuração feita pela força-tarefa da Polícia Federal enfraquece a tese que apontava o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica, e o vereador Marcello Siciliano (PHS) como autor e mandante da execução, respectivamente, da morte da parlamentar. Na manhã desta quinta-feira, agentes da PF cumprem oito mandados de busca e apreensão com o objetivo de apurar “possíveis ações que estariam sendo praticadas com o intuito de obstacularizar as investigações dos homicídios de Marielle e Anderson”.

Por trás das investigações — iniciadas em outubro do ano passado quando o miliciano Orlando Curicica denunciou à Procuradora-Geral da República, Rachel Dodge que a Delegacia de Homicídios da Capital (DH) o estaria coagindo para que assumisse o crime —, está um suposto esquema de pagamento de mesadas a policiais da especializada para a não elucidação de casos envolvendo a contravenção. Os investigadores da federal buscam indícios de que Curicica e Siciliano não teriam envolvimento no duplo homicídio.

Em outubro do ano passado, Curicica afirmou ao GLOBO, por meio de uma carta em resposta a 15 perguntas feitas pela reportagem, que a DH recebia R$ 200 mil por mês na época em que o ex-chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, era diretor da Divisão de Homicídios. É o que Curicica chama de “folha do fixo”, sistema no qual a funcionária é a Polícia Civil. O valor, no entanto, poderia ser maior, quando os investigadores negociavam uma imagem que poderia identificasse os assassinos, que poderia servir de prova nos inquéritos. O ex-PM está preso desde outubro de 2017, sendo que, depois do caso Marielle, foi transferido para o Presídio Federal de Mossoró (RN), em maio de 2018.

Quando a reportagem foi publicada, Rivaldo Barbosa disse, por meio de nota, que repudiava as declarações de Curicica: “ O chefe de Polícia Civil, delegado Rivaldo Barbosa, repudia a tentativa de um miliciano altamente perigoso, que responde a 12 homicídios, de colocar em risco uma investigação que está sendo conduzida com dedicação e seriedade. Ao acusado foram dadas amplas oportunidades pela Polícia Civil para que pudesse colaborar com as investigações do duplo homicídio dentro do estrito cumprimento da lei”. Marielle 1 – 21/02

A partir das denúncias, a força-tarefa da PF passou a investigar o caso. Curicica e Siciliano entraram no rol de suspeitos das mortes de Marielle e Anderson por conta de um delator, um policial militar que integrava o bando do miliciano: Rodrigo Ferreira. Ele procurou, espontaneamente, o delegado da Polícia Federal, Hélio Khristian, para contar que ouviu uma conversa entre Curicica e Siciliano, num restaurante no Recreio dos Bandeirantes, em junho de 2017, em que Marielle foi citada.

No encontro, segundo o delator, ele estava numa mesa próxima ao miliciano e o vereador, quando ouviu Siciliano falar alto: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Depois, bateu forte com a mão na mesa e gritou: “Marielle, piranha do Freixo”. Depois, olhando para o ex-PM, disse: “Precisamos resolver isso logo”. Ferreira disse, em depoimento à DH, para onde foi levado por Khristian e outros dois delegados federais, que os dois interlocutores no encontro referiram-se ao deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), de quem Marielle foi assessora durante a CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa do Rio.

Durante a apuração do caso, a força-tarefa da PF descobriu que Ferreira também teria ligações com um agente federal aposentado.

Se o depoimento do delator afasta Curicica e Siciliano do cenário de executores de Marielle e Anderson, por outro lado, as informações dele foram robustas, segundo a DH da Capital, para incriminar o miliciano em, pelo menos, 10 inquéritos.

PF investiga suspeitos de atrapalhar a investigação

A Polícia Federal decidiu, em novembro do ano passado, investigar a atuação de agentes públicos, milicianos e criminosos para atrapalhar as investigações do homicídio de Marielle Franco e Anderson Gomes. O pedido foi feito pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e anunciado pelo então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann. Também foi determinado que PF dê proteção a duas pessoas que prestaram depoimentos sobre o caso, diz o Extra.

Serão investigados os delitos de organização criminosa, coação no curso do processo, fraude processual, favorecimento pessoal, patrocínio infiel, exploração de prestígio, falsidade ideológica, além de outras falsidades e fraude e corrupção. Jungmann não quis dizer de quem são os depoimentos, que foram gravados e tomados dentro e fora do Rio de Janeiro, mas afirmou que um deles foi colhido há aproximadamente um mês e outro há cerca de 15 dias.

Em setembro do ano passado, o GLOBO revelou que, em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando de Curicica, suspeito de envolvimento no crime, afirmou que Marielle e Andeson foram executados pelo Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel formado por policiais militares da ativa e ex-policiais. Em entrevista ao GLOBO, ele negou a participação no duplo assassinato, mas pôs em xeque as investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro no caso.

Ao GLOBO, Orlando afirmou que a Polícia Civil não tem interesse em elucidar o crime. Integrantes da corporação, incluindo até o chefe da corporação, delegado Rivaldo Barbosa, teriam montado, segundo ele, uma intrincada rede de proteção aos “capos” da contravenção envolvidos em assassinatos. A mesma denúncia consta no depoimento de Curicica à Procuradoria-Geral da República (PGR), que já avaliava a possibilidade de federalizar a investigação.

21/02/2019